Problema observado
O cliente contratou BIM. O contrato menciona "BIM"; talvez cite "ISO 19650" no cabeçalho. Mas quando a equipe de entrega pergunta "o que exatamente vocês esperam receber?" — ninguém do lado do contratante sabe responder. O anexo formal de requisitos, que a ABNT NBR ISO 19650-2:2022 exige que a parte requerente estabeleça antes do convite à proposta (seções 5.1.1 a 5.1.8 e 5.2.1), não existe. Ou existe como parágrafo genérico: "modelos em LOD 300, arquivos IFC, entrega no final do projeto executivo" — sem definir o quê, para quê, com qual nível de informação necessária, com quais critérios de aceitação.
O que a norma chama de requisitos de informação da parte requerente (agrupando OIR, AIR e PIR) não foi elaborado. O EIR — a lista formal de "o que eu preciso receber" — não existe. E o resto do processo desmorona a partir daí:
- O BEP preliminar (5.3.2) que a equipe de entrega apresenta na resposta ao convite responde a requisitos inexistentes — é chute educado sobre o que o cliente vai aceitar.
- O BEP final (5.4.1) responde a alvo movediço, porque não há baseline documentada contra a qual o cliente possa cobrar cumprimento.
- A revisão e aceitação do modelo (5.7.4) exige, pela norma, que a parte requerente considere "os critérios de aceitação para cada requisito de informação" — sem esses critérios, a aceitação é discricionária, subjetiva, política.
- O modelo entregue é rejeitado com "não é bem isso que a gente queria", mas não havia baseline objetiva que definisse o "isso".
- Cada compromisso subsequente re-negocia requisitos que deveriam ter sido pactuados na origem — aditivo perpétuo.
O contratante contratou BIM. O contratante pagou. O contratante recebeu "modelos". Mas o valor da metodologia BIM — que só existe quando a informação certa, no nível certo, chega no momento certo, para a decisão certa — não se materializou. Porque a metodologia começa em requisitos formalmente estabelecidos, e ninguém os estabeleceu.
Sinais associados
- 1
"Não sei bem o que quero, quero um projeto BIM" · a frase (ou variação) sai do próprio contratante em reunião de kick-off. Sinal explícito de que a demanda ainda não foi decomposta em requisitos formais.
- 2
Contrato menciona "BIM" ou "ISO 19650", mas não tem anexo de requisitos · o contrato cita a metodologia sem incluir OIR, AIR, PIR nem EIR como anexos vinculantes. A cláusula funciona como declaração de intenção, não como especificação técnica.
- 3
A resposta a "o que vocês esperam receber?" é "LOD 300" · LOD sozinho não é requisito. A ABNT NBR ISO 19650-2 pede LOIN (Level of Information Need, EN 17412-1) por requisito, considerando geometria, informação alfanumérica e documentação de suporte — LOD trata só de uma parte.
- 4
OIR, AIR e PIR não são mencionados por ninguém do cliente · os três termos canônicos da ABNT NBR ISO 19650-1/2 (Organizational, Asset e Project Information Requirements) simplesmente não aparecem em nenhuma conversa, ata ou documento contratual.
- 5
Não existe designado do cliente para gestão da informação · a seção 5.1.1 da norma exige que a parte requerente nomeie profissionais responsáveis pelo gerenciamento das informações. Na prática, não há esse papel — o contato é o gerente de projetos "que também cuida do BIM".
- 6
BEP preliminar da equipe de entrega é elaborado por adivinhação · sem requisitos formalizados a que responder, o BEP responde ao que a equipe de entrega imagina que o cliente vai aceitar. É documento inteligente, mas responde a um alvo inventado.
- 7
Aceitação do modelo é por inspeção visual em reunião · sem critérios de aceitação previamente acordados (5.2.1 c), a homologação vira "parece bom", "está bonito", "vamos aceitar assim". Rejeição é igualmente subjetiva.
- 8
Rejeição pós-entrega vem com "não é bem isso que a gente queria" · a frase é o sintoma clássico. Sem baseline formal, a distância entre o entregue e o esperado é revelada só depois, e a discussão de responsabilidade não tem base documental.
- 9
Cada compromisso re-negocia requisitos · contrato 1 termina, contrato 2 (mesmo projeto, fase seguinte) começa re-discutindo o que deveria ter sido pactuado na origem. O empreendimento nunca acumula memória de requisitos.
- 10
A operação recebe modelo sem AIR · o time de facilities/manutenção herda modelo bonito visualmente mas sem as propriedades operacionais que precisaria (fabricante, código de peça, plano de manutenção, garantia). Não há AIR porque não houve requisito.
- 11
Contratante público replica edital genérico · muitos editais brasileiros ainda pedem "adoção de BIM" sem detalhar OIR/AIR/PIR. O contratado atende à letra do edital sem entregar o valor da ISO 19650.
- 12
Aditivos frequentes para "ajustar" escopo BIM · o que deveria ter sido especificado em contrato vira aditivo em execução — cada vez que o contratante percebe que algo não veio, negocia adição de escopo em vez de exigir cumprimento contratual.
Causas prováveis
- 1
Contratante não leu (ou não internalizou) ABNT NBR ISO 19650-1/2 · sem vocabulário canônico (OIR, AIR, PIR, EIR, LOIN, critério de aceitação, ponto-chave de decisão), o contratante não sabe o que precisa especificar. A norma existe, é brasileira, foi publicada em 2018 (parte 1) e 2022 (parte 2), mas segue subutilizada por contratantes.
- 2
Confusão entre BEP e requisitos · contratante acha que o BEP é a especificação. Não é. A ABNT NBR ISO 19650-2:2022 define BEP (3.1.3.1) como "plano que explana como os aspectos da gestão da informação do compromisso serão conduzidos pela equipe de entrega" — resposta ao EIR, não substituto dele. Se o EIR não existe, o BEP responde a nada.
- 3
Contratou consultoria BIM só do lado da entrega · a equipe de entrega tem consultor BIM; o contratante não. Sem contraparte técnica do lado do cliente, ninguém traduz necessidades de negócio em requisitos formais estruturados. A norma cobre isso em 5.1.1 (indicar profissionais responsáveis pelo gerenciamento das informações do lado da parte requerente).
- 4
Minuta contratual copiada sem seção de requisitos formais · a área jurídica adaptou modelo de contrato de projeto tradicional acrescentando "cláusula BIM" no cabeçalho, sem incorporar os anexos de EIR, protocolo de informação (5.1.8) e datas-marco de entrega (5.1.3) que a norma exige.
- 5
Achou que "LOD 300" era requisito suficiente · a nomenclatura LOD (Level of Development, BIM Fórum) é útil mas trata só de geometria + informação anexa em nível macro. A ABNT NBR ISO 19650-2 (5.2.1 b) pede o LOIN (EN 17412-1:2020), que decompõe em geometria, informação alfanumérica e documentação — por requisito. LOD sozinho é insuficiente e induz ao erro.
- 6
Falta OIR corporativo · a organização contratante não estabeleceu, em nível corporativo, o que ela precisa como padrão de todos os projetos. Sem OIR, cada projeto inventa seus requisitos do zero — e frequentemente inventa mal.
- 7
Falta AIR · não existe definição do que o time de operação/manutenção precisará receber como Asset Information Requirements. O handover pra operação vira surpresa no fim do projeto, e a maioria das propriedades operacionais que faltam poderiam ter sido pedidas na origem.
- 8
Sem ponto-chave de decisão declarado · a ABNT NBR ISO 19650-2 (5.1.2) pede que os requisitos considerem "as questões para as quais a parte requerente precisa ter respostas, para tomar decisões embasadas". Sem pontos-chave de decisão explícitos, o contratante não sabe QUANDO precisa da informação — e por consequência não sabe QUAL informação.
- 9
Cultura contratual brasileira ainda trata BIM como "modelagem 3D" · muito contratante — público ou privado — segue enxergando BIM como "projeto em 3D com mais detalhes", não como sistema de gestão da informação orientado a decisão. Sem essa mudança de mindset, especificar EIR parece burocracia.
- 10
Contratante público replica edital padrão sem detalhamento · muitos editais federais, estaduais e municipais ainda pedem "adoção de BIM" sem detalhar OIR/AIR/PIR. O edital atende à letra da Estratégia BIM BR sem operacionalizar a ISO 19650.
- 11
Ordem invertida: contrata BIM antes de definir uso da informação · a ABNT NBR ISO 19650-2 (5.1.2) exige considerar "o propósito para o qual as informações serão usadas pela própria parte requerente" antes de estabelecer requisitos. Se o contratante não sabe o que vai fazer com o modelo (operar, licitar reforma, treinar equipe, integrar a GIS), não consegue especificar o que precisa dele.
- 12
Falta protocolo de informação · a norma (5.1.8) pede um protocolo de informação do projeto — documento que define obrigações, direitos de propriedade intelectual, licenças, uso de informação existente do ativo, reúso pós-compromisso. Sem isso, o pós-entrega vira zona cinza.
Riscos
- 1
Modelo entregue diverge do esperado · a equipe de entrega produz o que ela decidiu produzir. O contratante recebe, percebe que não é o que precisa, mas não tem baseline para exigir correção contratual. Retrabalho é negociado como aditivo — pago pelo contratante.
- 2
Aditivos perpétuos · cada compromisso subsequente re-negocia requisitos. O empreendimento vira sucessão de aditivos porque a linha de base nunca foi formalizada. Custo total do projeto BIM cresce sem retorno proporcional.
- 3
Ativo entregue sem informação operacional · sem AIR estabelecido na origem, o time de facilities/manutenção recebe modelos que não servem para operar. O investimento em BIM vira "3D bonito" sem contrapartida na fase de operação — que é onde 80% do custo do ciclo de vida do ativo se realiza.
- 4
Aceitação por inspeção visual sem critério · sem critérios de aceitação previamente acordados (5.2.1 c da norma), a homologação vira ato de fé. Rejeição também vira ato de fé. Ambos os lados perdem: um por entregar demais, outro por receber menos do que precisa.
- 5
Rejeição de entrega em auditoria pós-contratação · contratante público ou grande privado com auditoria formal (interna ou externa) pode rejeitar entregas por falta de aderência à ABNT NBR ISO 19650-2 comprovada — mesmo que o conteúdo técnico do modelo esteja tecnicamente correto.
- 6
Disputa contratual sem baseline documental · em disputa (arbitral, judicial, extrajudicial) sobre cumprimento de entrega, a parte que não tem EIR formalizado como anexo contratual está sem defesa. O CIC BIM Protocol e a própria ABNT NBR ISO 19650 são referências consolidadas em juízo — a ausência delas fragiliza a posição do contratante.
- 7
BIM 5D contaminado · quantitativos extraídos sem LOIN definido por requisito batem em interpretação. Orçamento não fecha, medição vira disputa, aditivos precisam ser negociados retroativamente. O 5D só entrega valor se o EIR o previu.
- 8
Perda de investimento em BIM · contratou-se BIM, pagou-se por horas de modelagem, coordenação, entregas. O retorno esperado (menos retrabalho, menos disputa, ativo operável, gêmeo digital viável) não aparece. A organização conclui, injustamente, que "BIM não funciona pra gente".
- 9
Impossibilidade de certificação ISO 19650 · organizações que buscam certificação em ISO 19650 (para se qualificar em licitações internacionais, obras públicas com exigência ISO, ou selos corporativos) precisam evidenciar EIR formalizado e ciclo de gestão da informação completo. Sem os requisitos na origem, a certificação não passa.
- 10
Ativo entregue sem historicidade · sem trilha de decisões amarrada a requisitos formais, a fase de operação recebe modelos as-built sem o histórico do porquê de cada especificação. Auditoria retroativa (perícia, sinistro, reforma futura) fica sem base documental.
- 11
Rotatividade destrói o projeto BIM · sem EIR/OIR/AIR/PIR como documentos formais versionados no CDE, o conhecimento vive na cabeça das pessoas envolvidas. Quando saem, o projeto perde memória. Requisitos formalmente estabelecidos são a defesa contra rotatividade.
Gravidade estimada
Testes recomendados
Todos os testes abaixo podem ser executados pelo BIM Manager, pelo coordenador de projeto ou pelo próprio contratante como diligência. Não exigem consultor externo e são baseados diretamente em seções específicas da ABNT NBR ISO 19650-2:2022.
Teste 1 — Existência formal do EIR (Exchange Information Requirements)
Peça, por escrito, ao gestor do contrato: "me envie o EIR vigente deste projeto — o documento formal que estabelece os requisitos de troca de informação da parte requerente".
Se receber:
- Verifique se contém, minimamente: OIR (Organizational Information Requirements), AIR (Asset Information Requirements) e PIR (Project Information Requirements), conforme 5.2.1 a) da norma.
- Verifique se cada requisito tem LOIN (Level of Information Need, EN 17412-1:2020) definido — 5.2.1 b).
- Verifique se cada requisito tem critério de aceitação declarado — 5.2.1 c).
- Verifique se estão declaradas as datas-marco de entrega vinculadas a pontos-chave de decisão da parte requerente — 5.1.3 e 5.2.1 e).
Sinal de problema:
- Ninguém sabe onde está o EIR, ou o EIR não existe formalmente.
- Documento entregue é uma cláusula contratual genérica ("adotar BIM em LOD 300") sem os elementos acima.
- Documento entregue é o próprio BEP — sinal de confusão canônica (BEP responde ao EIR; não é o EIR).
Teste 2 — Rastreabilidade OIR → AIR → PIR → EIR
Escolha 3 requisitos declarados no EIR (se ele existir). Para cada um, tente rastrear:
- Qual OIR (requisito da organização contratante) ele responde?
- Qual AIR (requisito de gestão do ativo em operação) ele responde?
- Qual PIR (requisito específico do projeto) ele responde?
- Qual decisão o contratante vai tomar com essa informação, e em qual ponto-chave de decisão do plano de trabalho (5.1.2)?
Sinal de problema: requisito no EIR sem origem rastreável em OIR/AIR/PIR = requisito órfão, provavelmente incluído por hábito ou copiado de template. A norma pede rastreabilidade porque requisito sem propósito de decisão é custo sem retorno.
Teste 3 — Critério de aceitação por requisito
Para cada requisito do EIR (ou para amostra de 10, se o EIR for extenso), verifique se existe critério de aceitação objetivo declarado — em conformidade com a definição da norma (3.1.1.1): "evidência necessária para considerar que os requisitos foram completamente atendidos".
Exemplo de critério objetivo: "todo componente do tipo 'porta' terá as propriedades Fabricante, Modelo, Material, Resistência ao Fogo (min), Grau de Isolamento Acústico (dB), preenchidas conforme IDS anexo; validação via buildingSMART IDS Auditor no CDE do projeto".
Exemplo de critério subjetivo (não conforme): "o modelo deverá ter qualidade compatível com padrões de mercado".
Sinal de problema: ausência de critério, ou critério puramente qualitativo/subjetivo. Sem critério objetivo, a norma (5.7.4 — Revisar e aceitar o modelo de informação) não pode ser cumprida — a aceitação vira ato de fé.
Teste 4 — LOIN (Level of Information Need)
Para cada requisito no EIR, verifique se está declarado o LOIN conforme EN 17412-1:2020, com definição de:
- Geometria (detalhamento geométrico esperado)
- Informação alfanumérica (propriedades, atributos, classificações)
- Documentação (manuais, certificados, garantias associadas)
Sinal de problema: apenas menção a LOD (ex.: "LOD 300"), sem decomposição em LOIN. LOD é útil como referência de mercado, mas a ABNT NBR ISO 19650-2 (5.2.1 b) exige LOIN por requisito — o que é padrão mais estruturado e verificável.
Teste 5 — Designado da parte requerente para gestão da informação
Pergunte ao contratante: "quem, do seu lado, é o responsável formal pela gestão da informação deste projeto?" (seção 5.1.1 da norma).
Registre:
- Nome e cargo da pessoa (não "a equipe de projetos" nem "quem estiver disponível").
- Se é interno ou terceirizado (a norma aceita ambos, mas se terceirizado, o escopo de serviços precisa estar definido — 5.1.1).
- Se tem autoridade formal para: aceitar/rejeitar entregas, aprovar aditivos de escopo BIM, aprovar mudanças no protocolo de informação.
Sinal de problema: ninguém nomeado; ou pessoa nomeada sem competência específica em ISO 19650; ou papel formalmente atribuído mas sem autoridade real (não pode rejeitar entrega, não pode aprovar mudança de escopo).
Teste 6 — Alinhamento contrato × EIR × protocolo de informação
Leia as cláusulas técnicas do contrato principal. Verifique:
- O contrato referencia o EIR explicitamente como anexo vinculante?
- O contrato referencia o protocolo de informação do projeto (5.1.8) — obrigações de PI, licenças, reúso pós-compromisso?
- As datas-marco de entrega da informação (5.1.3) estão declaradas no contrato ou em anexo vinculado?
- Existe cláusula sobre critérios de aceitação (não só sobre "entrega")?
Sinal de problema: contrato menciona BIM ou ISO 19650 genericamente, sem anexar EIR, protocolo de informação, datas-marco e critérios de aceitação como documentos vinculantes. Sem vinculação contratual, o descumprimento não tem consequência formal — vira boa vontade.
Critérios de conformidade
O problema é considerado resolvido quando todos os itens abaixo forem verdadeiros, em aderência direta à ABNT NBR ISO 19650-2:2022:
A parte requerente indicou formalmente o(s) profissional(is) responsável(is) pelo gerenciamento das informações (5.1.1) — pessoa nomeada, competência declarada, autoridade formal para aceitar/rejeitar e aprovar mudanças.
Os requisitos de informação do projeto estão estabelecidos como documento formal (5.1.2), considerando escopo do projeto, propósito de uso da informação pela parte requerente, plano de trabalho, sistema de compromisso e pontos-chave de decisão declarados.
As datas-marco de entrega da informação estão declaradas (5.1.3), vinculadas aos pontos-chave de decisão da parte requerente — não a datas de calendário isoladas.
Os padrões de informação do projeto estão estabelecidos (5.1.4), cobrindo troca dentro da organização, entre a parte requerente e partes externas, entre a parte requerente e operadores, entre partes fornecedoras e entre projetos interdependentes.
Os métodos e procedimentos de produção da informação estão estabelecidos (5.1.5): captura de informação de ativos existentes, criação/revisão/aprovação, método de atribuição do nível necessário de informação, e entrega para a parte requerente.
As informações de referência e recursos compartilhados estão estabelecidos (5.1.6), preferencialmente com padrões de dados abertos, disponibilizados no CDE do projeto.
O ambiente comum de dados (CDE) do projeto está estabelecido antes do convite à proposta (5.1.7), com identificação única de contêineres, atributos de estado, revisão e classificação, e acesso controlado.
O protocolo de informação do projeto está estabelecido (5.1.8), cobrindo obrigações da parte requerente e das partes fornecedoras, garantias, propriedade intelectual, uso de informação existente e reúso pós-compromisso.
Os requisitos de informação da parte requerente (EIR) foram formalizados considerando OIR, AIR e PIR (5.2.1 a), com LOIN declarado por requisito (5.2.1 b), critérios de aceitação objetivos por requisito (5.2.1 c), informações de suporte (5.2.1 d) e datas-marco (5.2.1 e).
O contrato principal referencia formalmente o EIR, o protocolo de informação do projeto, as datas-marco de entrega e os critérios de aceitação como documentos vinculantes — descumprimento gera consequência formal, não apenas insatisfação.
Ações corretivas
Curto prazo (30-45 dias — estancar o sangramento):
-
Nomear formalmente o responsável pela gestão da informação do lado da parte requerente (5.1.1). Se não há competência interna, contratar consultoria em nome do contratante — a norma aceita explicitamente terceirização, desde que o escopo de serviços esteja definido. Este é o primeiro passo procedural — sem ele, nada mais avança formalmente.
-
Convocar workshop de decomposição de requisitos com stakeholders internos do contratante (jurídico, gestão de projeto, gestão de ativos, operação, financeiro). Objetivo: mapear o que a organização precisa (OIR), o que a operação vai precisar (AIR), o que o projeto específico precisa (PIR). Duração típica: 2-3 dias presenciais.
-
Redigir o EIR v1 com base no workshop — mesmo que preliminar e parcial. Estrutura mínima: OIR + AIR + PIR + LOIN por requisito + critérios de aceitação + datas-marco vinculadas a pontos-chave de decisão. Melhor um EIR imperfeito publicado do que a ausência perpetuada.
-
Congelar o EIR v1 como baseline contratual via aditivo. Se o contrato principal está em execução sem EIR, formalizar aditivo incorporando o EIR v1 como anexo vinculante. Sem incorporação formal, o EIR fica sem força.
-
Renegociar as próximas entregas contra o EIR v1. As entregas em andamento (que estavam operando sem baseline) passam a ser avaliadas contra os critérios de aceitação do EIR. Diferenças identificadas viram plano de correção formal, não improviso.
Médio prazo (60-120 dias — estabelecer o ciclo completo da norma):
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Estabelecer o protocolo de informação do projeto (5.1.8), incorporando obrigações das partes, direitos de PI, licenças de uso de informação existente, política de reúso. Anexar ao contrato.
-
Configurar o CDE do projeto (5.1.7), se ainda não está — com identificação única de contêineres, atributos de estado, workflow de revisão, acesso controlado. O CDE é onde a norma exige que o EIR e demais documentos vivam.
-
Estabelecer o OIR corporativo (aplicável a todos os projetos da organização), para que os próximos projetos não repitam o exercício do zero. OIR corporativo é investimento pontual com retorno multiplicativo em cada novo contrato.
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Estabelecer o AIR corporativo — o que a operação da organização sempre precisará, independente do projeto específico. Requer diálogo com facilities/manutenção que raramente ocorre no início do BIM.
-
Formar equipe interna com vocabulário ISO 19650 — mesmo que a execução seja terceirizada, o contratante precisa de pessoal com vocabulário canônico para dialogar de igual para igual. Treinamento inicial de 16-24h para stakeholders-chave.
Prevenção
- 1
EIR é elaborado ANTES do convite à proposta · a ABNT NBR ISO 19650-2 (seção 5.2 — Convite à proposta) exige que o EIR esteja pronto para ser incluído no pacote de convite (5.2.4). Elaborar EIR depois do contrato assinado é aceitar iniciar o projeto sem baseline — situação que a norma explicitamente ordena evitar.
- 2
OIR corporativo antes de qualquer projeto · a organização que faz projetos BIM recorrentemente estabelece uma vez seu OIR (Organizational Information Requirements) e usa como base de todos os EIRs subsequentes. Investimento pontual com retorno em todos os contratos.
- 3
AIR envolve a operação desde o início · facilities, manutenção e operação são consultados na definição do AIR — não recebem "o modelo pronto" no fim. A norma pede considerar "o uso da informação durante a fase operacional do ativo" (5.1.4 d).
- 4
Ponto-chave de decisão como âncora dos requisitos · cada requisito no EIR está amarrado a uma decisão específica que a parte requerente precisará tomar em ponto-chave declarado do plano de trabalho (5.1.2). Requisito sem decisão associada é candidato a supressão — é custo sem retorno.
- 5
LOIN por requisito, não LOD global · a norma pede (5.2.1 b) o nível necessário de informação por requisito, seguindo EN 17412-1:2020. Nada de "todo o modelo em LOD 300" — cada requisito tem seu LOIN, calibrado ao propósito de uso.
- 6
Critério de aceitação objetivo por requisito · toda linha do EIR tem seu critério de aceitação declarado (5.2.1 c), preferencialmente verificável de forma automatizada (via IDS, ruleset ou script). Sem critério objetivo, a revisão (5.7.4) fica subjetiva e a norma não é atendida.
- 7
Contrato incorpora EIR + protocolo + datas-marco · as cláusulas técnicas do contrato principal referenciam formalmente o EIR, o protocolo de informação (5.1.8), as datas-marco (5.1.3) e os critérios de aceitação como documentos vinculantes. Sem incorporação, sem consequência.
- 8
Designado do lado do contratante com autoridade real · o profissional nomeado em 5.1.1 tem tempo alocado, competência em ISO 19650 e autoridade formal para aceitar/rejeitar entregas e aprovar mudanças. Papel decorativo perpetua o problema.
- 9
CDE estabelecido antes do convite · a norma recomenda explicitamente que o CDE esteja funcional antes do convite à proposta (5.1.7), para que a informação seja compartilhada de forma segura com os proponentes. Setup posterior perpetua "informação por email".
- 10
Lições aprendidas capturadas ao encerrar cada empreendimento · a norma exige (5.8.2) que a parte requerente, em colaboração com a parte fornecedora líder, capture lições aprendidas em repositório de conhecimento resgatável em projetos futuros. Sem esse ciclo, cada projeto começa do zero.
Referências normativas
- ABNT NBR ISO 19650-1:2018Organização e digitização da informação sobre edifícios e obras — Parte 1: Conceitos e princípios. Base conceitual: OIR, AIR, PIR, EIR, LOIN, CDE, princípios da gestão da informação.
- ABNT NBR ISO 19650-2:2022Parte 2: Fase de entrega dos ativos (versão corrigida 2, 01.10.2025). Referência canônica desta página. Define processo em 8 atividades: determinação das necessidades, convite à proposta, resposta ao convite, compromisso, mobilização, produção colaborativa, entrega do modelo, encerramento. Seções 5.1.1 a 5.1.8 e 5.2.1 são o núcleo da responsabilidade da parte requerente.
- ABNT NBR ISO 19650-3Parte 3: Fase operacional dos ativos. Detalha requisitos de gestão da informação para a fase de operação — relevante para especificar AIR de forma completa.
- ABNT NBR ISO 12006-2Construção de edificação — Organização de informação da construção — Parte 2: Estrutura para classificação. Referenciada pela ISO 19650-2 (5.1.7) para classificação de contêineres de informação no CDE.
- EN 17412-1:2020Building Information Modelling — Level of Information Need. Norma que a ABNT NBR ISO 19650-2 (5.2.1 b) referencia explicitamente para definir LOIN por requisito — decompõe em geometria, informação alfanumérica e documentação.
- ABNT NBR ISO 55000Gestão de ativos — Visão geral, princípios e terminologia. Base para articular AIR com a estratégia de gestão de ativos da organização.
- buildingSMART IDS 1.0Information Delivery Specification — regras verificáveis sobre IFC. Ferramenta canônica para operacionalizar critérios de aceitação objetivos em requisitos de propriedade.
- BIM Fórum LOD SpecificationReferência de mercado para LOD (Level of Development). Útil como âncora, mas insuficiente sozinho — a norma pede LOIN (EN 17412-1) que é mais estruturado.
- CIC BIM Protocol (UK)Modelo internacional de aditivo contratual para vincular EIR, BEP e protocolo de informação ao contrato principal. Referência para redação contratual brasileira.
- Guias BIM BR (governo federal)Estratégia BIM BR e cadernos técnicos. Orientam contratação de BIM em obras públicas federais — leitura obrigatória para contratantes públicos ao especificar EIR alinhado a editais.
Quando contratar ajuda especializada
A ausência de EIR formal é o tipo de problema que rara vez uma organização resolve sozinha — porque a competência para estabelecer requisitos formais é exatamente a competência que está faltando. Vale contratar consultoria de definição de requisitos (do lado da parte requerente) quando:
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O contratante vai iniciar um novo empreendimento em BIM e reconhece que não tem OIR/AIR/PIR estabelecidos — o custo de errar na origem é muito superior ao investimento em fazer bem feito antes do convite à proposta.
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O contratante é público ou vai licitar obra pública com exigência de aderência à ABNT NBR ISO 19650 — o EIR precisa estar tecnicamente aderente à norma para sobreviver a auditoria externa.
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Existe contrato BIM em execução sem EIR formalizado e os sintomas descritos nesta página já estão presentes — recuperar via aditivo com EIR retroativo é possível, mas exige método estruturado.
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A organização quer estabelecer padrão corporativo de contratação BIM (OIR + template de EIR + protocolo de informação padronizado) para uso em múltiplos projetos futuros — consultoria pontual com retorno multiplicativo.
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Litígio ou perícia sobre não cumprimento de "requisitos BIM" está em curso ou iminente — laudo técnico independente sobre o que a norma exige e o que estava (ou não) formalizado é insumo aceito em juízo arbitral e judicial.
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Certificação em ISO 19650 está no horizonte — auditor de certificação exige evidência formal de EIR e ciclo de gestão da informação completo, preparação com antecedência.
Serviço relacionado
Definição de requisitos (EIR / PIR / AIR / OIR)
Consultoria presencial conduzida pelo Prof. Dr. Leonardo Manzione, do lado da parte requerente (contratante). Em quatro semanas, a Coordenar mapeia — em workshop presencial com os stakeholders internos do contratante (gestão de projeto, gestão de ativos, operação, jurídico) — os requisitos de informação da organização (OIR), do ativo em operação (AIR) e do projeto específico (PIR), redige o EIR aderente à ABNT NBR ISO 19650-2:2022 (com LOIN por requisito e critérios de aceitação objetivos), e entrega minuta de aditivo contratual incorporando EIR + protocolo de informação + datas-marco como anexos vinculantes. Presencial é condição — mapear requisitos organizacionais reais só acontece em reunião no ambiente de trabalho, não em call.
Solicitar consultoria de definição de requisitos