Problema observado
Pedir a propriedade no contrato não coloca a propriedade no modelo. Só a verificação coloca.
O BEP listou as informações exigidas, o EIR detalhou, o contrato assinou. Chega o IFC: a geometria está lá, o modelo abre, o clash roda. Mas os campos que sustentam orçamento, manutenção e laudo estão vazios — ou preenchidos com outro nome, em outro Property Set, fora do padrão contratado. A informação que dá valor ao modelo é justamente a que faltou.
No IFC (ISO 16739-1:2024), a informação alfanumérica vive em IfcPropertySet (os Pset_ padronizados e os customizados), com valores em IfcPropertySingleValue, ligados ao elemento por IfcRelDefinesByProperties; quantidades vão em IfcElementQuantity. Se o Pset esperado não veio, ou veio vazio, ou com nome fora do padrão, a propriedade contratada não existe para quem consulta — mesmo que o modelo pareça completo.
O problema raramente é o projetista esquecer. É o requisito nunca ter virado teste. Sem nível de informação necessária (LOIN) declarado — quanta informação, para qual propósito (§11.2 da 19650-1; ABNT NBR ISO 7817-1) — e sem IDS (ISO 29481-3) que traduza esse LOIN em regra verificável, o BEP pede em prosa e ninguém confere. O rule engine só reprova o que foi especificado como regra.
Propriedade contratada é entregável, não gentileza. A §5.2.1 c) da 19650-2 exige critério de aceitação por requisito, e a verificação da garantia da qualidade confere antes da troca (§5.6.3). IFC sem as propriedades que o BEP pediu é entrega incompleta — só que a falta não aparece na tela, aparece na consulta.
Sinais associados
- 1
Campos alfanuméricos vazios · o elemento tem o Pset esperado, mas as propriedades estão em branco. Estrutura presente, valor ausente.
- 2
Pset contratado não veio · o Property Set customizado exigido no BEP simplesmente não existe no IFC entregue.
- 3
Propriedade com nome fora do padrão · a informação está no modelo, mas sob outro nome ou outro Pset, fora do que foi contratado. Nenhuma consulta padronizada a encontra.
- 4
IDS falha por falta de propriedade · ao rodar a verificação, elementos reprovam porque a propriedade exigida não está presente ou está vazia.
- 5
Faltam fabricante, material ou código · campos que sustentam orçamento, compra e manutenção não vieram — o modelo serve para ver, não para operar.
Causas prováveis
- 1
LOIN não declarado · ninguém definiu quanta informação cada entregável precisa ter, para qual propósito e em qual fase (§11.2 da 19650-1; ISO 7817-1). Sem isso, o requisito é vago.
- 2
Requisito em prosa, não em regra · o BEP descreve as propriedades exigidas em texto, mas não há IDS (ISO 29481-3) que traduza isso em regra verificável sobre o IFC.
- 3
Preenchimento manual sem conferência · as propriedades dependem de o projetista lembrar de preencher campo a campo, e nada confere depois.
- 4
Mapeamento de export incompleto · os parâmetros do software não estão mapeados para os Pset e nomes IFC esperados, e saem vazios ou renomeados na exportação.
- 5
Aceite sem verificação de informação · o modelo é aceito pela geometria, sem checar se a informação alfanumérica contratada está presente (§5.2.1 c e §5.6.3 da 19650-2).
Riscos
- 1
Orçamento e 5D travados · sem propriedade de material, classificação ou quantidade, a extração para orçamento não roda — ou roda sobre dado faltando.
- 2
Manutenção e FM sem base · ativo sem dados de fabricante, garantia e código não entra no sistema de manutenção. O modelo não serve para operar.
- 3
Laudo sem evidência · exigências técnicas (desempenho, segurança, acessibilidade) que dependem de propriedade preenchida não podem ser comprovadas.
- 4
Entrega juridicamente incompleta · a informação exigida no EIR não está presente sob o nome esperado. A leitura contratual é: não entregou.
- 5
Falha que só aparece na consulta · o modelo parece pronto na tela; a ausência de propriedade só emerge quando a informação é usada, tarde e no caminho crítico.
Gravidade estimada
Testes recomendados
Teste 1 — As propriedades contratadas estão presentes?
Pegue o BEP e o EIR. Para cada propriedade exigida, procure no IFC o Pset e o nome correspondentes, com valor preenchido.
Sinal de problema: propriedade ausente, vazia ou sob nome/Pset diferente do contratado.
Teste 2 — Existe LOIN por trás do requisito?
Verifique se o requisito declara quanta informação cada entregável precisa, para qual propósito e fase (LOIN).
Sinal de problema: exigência genérica (a parede deve ter as propriedades necessárias) sem nível de informação necessária declarado.
Teste 3 — O requisito virou IDS?
Confirme se há um arquivo IDS (ISO 29481-3) que expressa as propriedades exigidas como regra verificável (Pset, nome, tipo de dado, cardinalidade).
Sinal de problema: o BEP pede em prosa, mas não há IDS. Nada confere automaticamente.
Teste 4 — A verificação reprova o que falta?
Rode a IDS contra o IFC entregue e leia o relatório.
Sinal de problema: elementos reprovando por propriedade exigida ausente ou vazia — a entrega não cumpre o requisito.
Teste 5 — A informação foi checada no aceite?
Confirme se o aceite conferiu a presença da informação alfanumérica contratada, não só a geometria.
Sinal de problema: modelo aceito pela aparência, sem verificação de propriedade (§5.2.1 c e §5.6.3 da 19650-2).
Critérios de conformidade
Cada propriedade exigida no BEP e no EIR está presente no IFC, no Pset e com o nome contratados, com valor preenchido — ISO 16739-1:2024.
O requisito tem LOIN declarado: quanta informação, para qual propósito e fase — §11.2 da 19650-1; ABNT NBR ISO 7817-1.
O LOIN foi traduzido em IDS (ISO 29481-3) verificável por rule engine sobre o IFC.
A IDS roda contra a entrega e o relatório não acusa propriedade exigida ausente ou vazia.
As quantidades vêm em IfcElementQuantity e as propriedades em IfcPropertySet e IfcPropertySingleValue, não em campos avulsos.
O aceite verifica a presença da informação alfanumérica, não só a geometria — §5.2.1 c e §5.6.3 da 19650-2.
Cada verificação de propriedades deixa registro no CDE.
Ações corretivas
Curto prazo (30 dias):
-
Declarar o LOIN das propriedades críticas do EIR: quanta informação, para qual propósito, em qual fase (§11.2 da 19650-1; ISO 7817-1).
-
Traduzir esse LOIN em IDS (ISO 29481-3): Pset, nome, tipo de dado e cardinalidade de cada propriedade exigida.
-
Rodar a IDS contra o IFC atual e gerar o baseline de tudo que falta, por disciplina.
Médio prazo (60-90 dias):
-
Instituir o gate técnico: nenhuma entrega é aceita sem passar pela IDS, com relatório arquivado no CDE como evidência.
-
Mapear os parâmetros de cada software para os Pset e nomes IFC contratados, para que a exportação não gere campo vazio ou renomeado.
-
Versionar a biblioteca de IDS por tipologia, para que cada novo projeto puxe as regras vigentes em vez de reescrevê-las.
Prevenção
- 1
LOIN nasce com o requisito · cada propriedade exigida no EIR nasce com nível de informação necessária declarado — quanto, para quê, em qual fase.
- 2
Requisito é IDS, não prosa · o LOIN vira IDS verificável (ISO 29481-3), não texto que ninguém confere.
- 3
Gate técnico antes do aceite · nenhuma entrega passa sem a IDS aprovar; o relatório fica arquivado no CDE.
- 4
Export mapeado · os parâmetros do software são mapeados para os Pset e nomes contratados, sem campo vazio ou renomeado.
Referências normativas
- ABNT NBR ISO 16739-1:2024Industry Foundation Classes (IFC). A informação alfanumérica vive em IfcPropertySet (Pset_ padronizados e customizados), com valores em IfcPropertySingleValue e ligação ao elemento por IfcRelDefinesByProperties; quantidades em IfcElementQuantity. É o alvo concreto que a IDS verifica.
- ABNT NBR ISO 7817-1:2024Level of information need (LOIN). Define como declarar quanta informação um entregável precisa ter, para qual propósito — a base para transformar um requisito vago em propriedade exigível e verificável. §7 institui a verificação e validação da informação.
- ISO 29481-3Information delivery manual, Part 3. Formaliza a IDS (Information Delivery Specification), que traduz o LOIN em regra verificável — Pset, nome, tipo de dado, cardinalidade — que o rule engine confere sobre o IFC antes do aceite.
- ABNT NBR ISO 19650-2:2018Fase de entrega. §5.2.1 c) exige critério de aceitação por requisito de informação; §5.6.3 institui a verificação da garantia da qualidade antes da troca. Propriedade contratada é requisito com critério, não gentileza.
- ABNT NBR ISO 19650-1:2018Conceitos e princípios. §11.2 define o nível de informação necessária (LOIN) como o mínimo suficiente para o propósito — informação além do necessário é desperdício, aquém é entrega incompleta.
Quando contratar ajuda especializada
Declarar o que falta é fácil de dizer e trabalhoso de tornar verificável. Vale contratar quando:
- As entregas são IFC e as propriedades exigidas precisam virar IDS que o rule engine confere antes do aceite.
- O contratante é público ou há certificação, orçamento ou FM dependendo da informação, e a presença de cada propriedade precisa ser auditável.
- Existe disputa sobre uma entrega — o contratante alega falta de informação, o fornecedor alega conformidade — e é preciso um laudo que mostre o requisito, a regra e o resultado.
Serviço relacionado
Elaboração de IDS (Information Delivery Specification)
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